segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A capacidade de nos inspirar




                 Recordo  com clareza de quando ainda adolescente e saindo de uma ou outra sessão vespertina de cinema logo após assistir uma ou duas vezes seguidas um filme de ação daqueles mais característicos pela performance espetacular do herói/astro principal, dava de frente com as ruas tomadas por outros espectadores de mesma idade imitando do lado de fora, ou tentando no máximo, reproduzir as cenas das lutas e sequências mais emocionantes que havíamos terminado de assistir na tela grande. Era algo muito comum testemunhar isto e, por vezes, também fazer o mesmo; uma multidão de jovens saltitando e encenando e, agindo assim, repercutindo todos os efeitos provocados pela forte mensagem transmitida. Não raras vezes, alguns se excedíam e terminavam por provocar confrontos reais com sequelas desagradáveis. 
                  Posso afirmar com segurança que em uma grande maioria de nós, qualquer censura alheia que tentasse nos provar que aqueles filmes assistidos tinham um papel preponderante no processo de influência e mudança de comportamento de quem os assistia, seria rejeitada com a mesma paixão que nos organizávamos para voltar a vê-los. A arte (considere-se aqui também o cinema como a sétima arte) tem realmente esse potencial arrebatador sobre nossas emoções, ela nos toca no mais profundo e nos rendemos a ela de maneira a envolver nossos sentidos e alterar nossas percepções mais racionais. E, ela, a arte, pode ser tanto muito boa como perniciosa conforme aquilo que ela inspire e desperte em nós. Não pretensiosamente, gostaria de  dar um salto deixando a posteriori a discussão da natureza da arte para pensar nos impactos psíquicos e sociológicos e situar a atenção num microcampo das emoções e ações provocadas pelas histórias com as quais temos contato, ou deveriamos ter cotidianamente, através da Bíblia Sagrada. 
                Os cristãos de hoje envolvidos por todas as tragédias humanas da pós-modernidade parecem ter perdido uma significativa parte da confiança que outrora possuíram na mensagem e nas promessas de Deus a eles entregues. Parecem eles ter esquecido a importância que as histórias do livro da revelação de Deus desempenhou na vida de seus antepassados, no seu poder de encorajamento e de instrução prática tão fundamentais que possibilitaram a estes cristãos de hoje todo um legado cultural impresso pela mensagem de Deus em todo o mundo. Ainda que vivamos numa sociedade que tende muito mais para a secularização, todas as grandes instituições de proteção e de desenvolvimento humanas tais como a educação, a justiça e a moderna democracia política foram edificadas por homens que professavam a fé do Livro. O fenômeno de retração no avanço do cristianismo como uma fé que possui vigor e credibilidade para protagonizar os rumos do mundo não como uma teocracia, mas, como um estado de justiça e de respeito mútuo, parece ter mais a ver com a perda da crença na Palavra de Deus do que um temor excessivo diante dos homens. Se o mundo está tomado de violência, a igreja perdeu a confiança na proteção e livramento; se o mundo está minado pela corrupção, a igreja perdeu a capacidade de se manter idônea em nome da santidade; se o mundo odeia a Deus, a igreja desfez-se dos afetos mais preciosos que são fundamentais para a constituição do corpo de Cristo; ela não consegue amar nem a si mesma. Para compreender isto, é impossível não imputar responsabilidade ao apagar do entendimento da fé como um conceito revestido de realidade, de poder e de potencial inspirativo. Os cristãos são afinal um povo que por natureza espiritual devería ter a mais destacada inclinação para crer na possibilidade do impossível, ou seja, crer na sua própria existência não como a da mera matéria com um fim determinado e uma espera pelo desconhecido para seu espírito/ alma, mas, como cada indivíduo, um fio ajustado e indispensável no tecido com o qual Deus teceu a eternidade. Cristãos procedem de linhagem  que inclui monarcas e escravos, sacerdotes, prostitutas e ladrões, que assim foram acolhidos por Deus sem que neles nada houvesse de belo ou benemérito,  todas as classes e etnias com a marca comum da graça redentora e regenedora que os conduziu por travessias e obstáculos para eles intransponíveis; maravilhas e milagres os acompanharam. Pelo cumprimento das promessas de Deus o sobrenatural se descortinou para eles. Os cristãos sobretudo, procedem de um Deus que se fez em semelhança de homem, rendeu-se à morte de cruz para infringir-lhe, morte em sua morada, desgraça e fracasso, ressuscitando em sua condição real de glória e esplendor.
                Não existe bom senso na conduta fria e descrente do cristão sendo ele parte deste processo histórico com vistas para a eternidade. É claro que momentos de abatimento e consternação são praticamente inevitáveis a todo homem nessa vida ainda limitada por contingências e inconstâncias, mas essas situações quando manifestas não podem imobilizá-lo ou anular a sua crença em Deus e em sua atuação presente, senão impedindo a provação, acompanhando-o e sustentando-o até a superação vitoriosa. Quando chamo atenção para o poder de influência e inspiração que as histórias, bíblicas ou não provocam em nós, quero resgatar a potencialidade por vezes adormecida e nos incitar à sonhos mais audaciosos e movimentos igualmente mais corajosos. Muitas vezes alimentamos nosso espírito com pouco mais que o bastante para a subsistência e, assim, nos colocamos à margem da nossa vocação e vítimas em potencial ao fracasso. No obstante, não quero alimentar espírito de alienação ou conduta irresponsável. Não existe promessa alguma de que voltaremos a repetir os feitos de um Moisés, um Elias ou, um Davi, mas, é certo que se confiarmos no Deus vivo como aqu'Ele que tem poder para tal e muito mais, se nos colocarmos rendidos e ao mesmo tempo de prontidão em suas mãos, Ele nos fará transcender o conformismo e a estagnação espiritual.  A mesma paixão e o envolvimento de nós mesmos lançados nas histórias dos grandes heróis da humanidade ou dos heróis míticos deveria ser percebida nos relatos dos grandes personagens bíblicos. Para um herói escravo como Spartacus, temos nas Escrituras um Moisés que conduziu um povo da escravidão à terra prometida; para um Júlio César construtor de um império romano continental, temos nas Escrituras um Davi que unificou e edificou um reino que prevaleceu frente aos grandes impérios em redor; para um Leônidas de Esparta que com sete mil homens, impôs derrota e escândalo ao mais poderoso exército de sua época com trezentos mil homens, encontramos nas Escrituras um grupo de doze humildes discípulos desarmados que assolou o maior  império que já existiu com uma mensagem e uma fé que foi determinante para seu declínio e a construção dos modernos estados.
                Como um exercício intelectual procure reconstruir mentalmente a mais fantástica história que você tem guardada na lembrança, seja ela relativa a um fato real ou uma ficção. Imagine-a em todos os seus aspectos com destaque para aquilo que ela produz de impacto e espanto em você. Depois, compare-a com as sobrenaturais histórias de heróis humanos narradas na Bíblia e honestamente verifique se algo estas devem a qualquer outra em paixão, vigor e inspiração. Se você pensa como eu, elas não nos faltam em nada que lhes seja louvável e de bom propósito. Em verdade, elas acrescentam um ingrediente particular e único, Elas são testemunhos reais que retratam uma essência manifesta que se transfere para todos que foram lavados pelo sangue do cordeiro. As histórias da Bíblia são muito mais que uma literatura superior, sublime,  mais que arte sacra, mas, por elas  extrapolarem a essa classificação, elas não podem sofrer de nós desprezo que algumas vezes lhe é  atribuído em favorecimento da literatura dita secular, o evento da inspiração divina concedida a seus autores humanos  para escrever a revelação do Altíssimo, não anulou os traços de humanidade e personalidade deles nelas impressos. Nela encontramos a nós mesmos em nossas fraquezas e possibilidades.  
                    
                  

3 comentários:

  1. Meditarei nos teus preceitos, e terei respeito aos teus caminhos.
    Recrear-me-ei nos teus estatutos; não me esquecerei da tua palavra.
    Salmos 119:15,16

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