A perseguição é sem sombra de dúvidas, uma das marcas mais indeléveis da história da igreja cristã em todos os tempos. Desde a sua implementação no seio da comunidade judaica do Século I até os dias atuais a fé monoteísta no Deus triúno, Pai, Filho e Espírito Santo, atraiu de maneira direta ou indireta, para os seus adeptos e crentes alguma forma de resistência por parte do mundo no qual ela se insere e o qual ela deseja influenciar com sua cultura e cosmovisão cristocêntrica. O próprio Cristo crucificado em favor de sua igreja, exortou aos seus discípulos e preveniu-lhes acerca da perseguição (Mt. 5. 11, 12) que enfrentaríam eles e todos aqueles que professassem o seu nome e o confessassem como salvador. Como afirmou o historiador inglês professor da universidade de Harvard, "A história do cristianismo é a história de uma intervenção divina na história.." e nem todos os homens, em verdade só uma parcela deles, estão ou serão dotados para acolher esta intervenção de forma a contrariar seus instintos e anseios, e, submeter-se aos desígnios de um livro, ainda que a própria história deste livro seja a maior prova que o Deus nele descrito e manifesto seja um Deus real, vivo, soberano e permanentemente presente no mundo. A perseguição sofrida muito embora jamais a devamos desejar, deve ser compreendida como parte do nosso passado, matéria que pavimentou o caminho traçado por nossos irmãos e auxiliou o encorajamento de tantos outros ao enfrentamento contra os padrões do mundo.
Uma das grandes e mais cruéis épocas de perseguição enfrentadas pela igreja cristã, ainda em seus primórdios, se deu por iniciativa do imperador romano Nero, quando no ano 64 atribuiu aos cristãos a culpa pelo grande incêndio em Roma, crime este, muito provavelmente provocado doentíamente por ele mesmo. O fato é que utilizando-se de fraude acusatória e mais interessado em uma espécie de limpeza étnica, Nero deflagrou ostensivo assédio aos cristãos durante seu período de governo como atestam historiadores de seu próprio tempo. Logo abaixo segue o relato do político e historiador Públio Cornélio Tácito 55 d.C-120 d.C, um excerto de sua obra Os Anais que captura o ambiente e situação da época, além de sua crença na inocência dos cristãos:
" Mas os empenhos humanos, as liberalidades do imperador e os sacrifícios aos deuses não conseguiram apagar o escândalo e silenciar os rumores de ter sido ordenado o incêndio de Roma. Para se livrar de suspeitas, Nero culpou e castigou, com supremos refinamentos de crueldade, uma casta de homens detestados por suas abominações e vulgarmente chamados de cristãos. Cristo, do qual seu nome deriva, foi executado por disposição de Pôncio Pilatos durante o reinado de Tibério. Reprimida durante algum tempo, essa superstição perniciosa voltou a brotar, já não apenas na Judéia, seu berço, mas na própria Roma receptáculo de quanto sórdido e degradante produz qualquer recanto da terra. Tudo, em Roma encontra seguidores. De início, pois, foram presos todos os que se confessavam cristãos. Depois, uma multidão enorme foi condenada não por causa do incêndio, mas, acusada de ser o opróbrio do gênero humano. Acrescente-se que, uma vez condenados à morte, eles se tornavam objetos de diversão. Alguns costurados em peles de animais, expiravam despedaçados por cachorros. Outros morriam crucificados. Outros ainda eram transformados em tochas vivas para iluminar a noite. Para esses festejos, Nero abriu de par em par seus jardins, organizando espetáculos circenses em que ele mesmo aparecia misturado com o populacho ou, vestido de cocheiro, conduzia sua carruagem. Suscitou-se um sentimento de comiseração até para com homens cujos delitos mereciam castigo exemplares, pois se pressentia que eram sacrificados não para o bem público, mas para satisfação da crueldade de um indivíduo."
* -Tácito, Annales, XV.44-
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| Busto do imperador Nero |
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| O historiador romano Tácito |
Acerca do tema da perseguição contra a fé cristã voltaremos a melhor tratar em momento posterior, por enquanto com a exposição deste documento histórico desejo suscitar apenas uma reflexão em torno da potencialidade transformadora da igreja brasileira em um cenário de mundo que apesar de já mostrar formas veladas ou explícitas de restrição aos crentes, ainda deixa muito abertas veredas por onde podemos percorrer livres e influenciar o todo com o nosso testemunho, a nossa pregação e a intervenção soberana de Deus. _ " Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor."- Rm. 8. 38, 39.
* Fonte: Documentos da igreja cristã, H. Bettenson/ ASTE.


E Deus limpará de seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque já as primeiras coisas são passadas. Apocalipse 21:4
ResponderExcluirAguardando a continuação da série comentário, excelente texto para reflexão e fonte de pesquisa.
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