domingo, 27 de setembro de 2015

Carpe diem*





                 Ao cunhar a expressão que dá título ao presente artigo, o poeta, satírico e filósofo da Roma antiga Quinto Horácio Flaco (Quintus Horatius Flaccus),  nascido em Venúsia, atual Venosa na Itália, tinha em mente uma compreensão completamente díspar do que a sociedade de sua época considerava como o ideal de uma vida ditosa. Horácio exortava seu círculo de atuação à abstrair-se das distrações da mente que os afastava da busca da virtude; apesar de que ele ainda estimule o usufruto dos prazeres do momento presente em face da brevidade da vida, neste desfrute proposto por Horácio, deve estar dominante a orientação para que do dia presente se colha, se extraia toda a sabedoria e o conhecimento que tornam o homem pleno.
                 O público-alvo dessa instrução do poeta romano no entanto, estava restrito a uma elite que podia dispor de liberdade e de recursos raros na grande massa dos residentes do império. Mas, a expressão de Horácio preservou-se e continua válida diante da necessidade de que todas as sociedades posteriores tiveram e têm de ouví-la para reorientar sua caminhada na vida, pois não se pode negar que o homem é ou deveria ser um ente, um ser em constante evolução intelectual e aprimoramento da sua relação com a sua própria essência e com o seu semelhante. E notoriamente, isso não acontece. E, quanto ao cristão professo, o homem que foi regenerado por Deus para uma nova vida sem que para isso tivesse contribuído com qualquer obra digna de louvor ou virtude própria, qual a orientação para sua vida presente diante de um contexto que se aproxime do "carpe diem" e da orientação que o Evangelho define para o crente?
                 O apóstolo Paulo na sua carta aos filipenses, "a carta da alegria", ensina aos fiéis daquela igreja e os cristãos de todas as épocas por extensão, um modo de vida que tanto dignifica O Evangelho, quanto reproduz no indivíduo o ideal de vida abundante em face da "vita brevis"  fim e destino que é comum a todos. Referendado por seu  exemplo pessoal, que é por sua vez a imitação tanto quanto possível da vida do Cristo encarnado, Paulo inicia sua instrução louvando a Deus pelo testemunho e progresso na fé dos filipenses, o que muito lhe tem causado alegria mesmo estando ele ausente como pastor deles (v.v. 3-6), o contentamento de Paulo o conduz a interceder em oração para que o amor consciente da igreja os leve ao encontro de um conhecimento maior e excelente acerca de Deus, e da inculpável acolhida no Dia de Cristo (v.v. 9,10).
               A conduta reta dos cristãos não os isenta no entanto, de continuar sob permanente atitude de vigília sobre si mesmos contra as paixões que a Carne  ainda suscite o recalcitrar em oposição ao espírito. O apóstolo destaca que o seu próprio sofrimento em cadeias (v.v. 12-14), em verdade cooperou para o progresso do Evangelho tanto mediante sua pregação e bom testemunho cristão, como produziu-lhe uma influência poderosa numa  proclamação ainda mais intrépida e confiante de todos os que prosseguiram na missão em liberdade. A liberdade para Paulo é na verdade algo que parece ser subjetivo, uma vez que os grilhões que o mundo usa para acorrentá-lo são símbolos menores diante das cadeias em Cristo às quais ele rendeu-se por inteiro e pelas quais a morte vem como troféu e, o sofrimento ainda que produza chagas e dor produz satisfação como fim ultimo.
                Paulo exorta aos filipenses à uma vida como celebração da unidade baseada na expressão mútua e coletiva de afetos que procedem do íntimo e da essência restaurada por Cristo em cada um. Mas é depois de destacar o exemplo de humildade de Cristo em abdicar temporalmente dos meios de sua natureza divina, que Paulo instrui ao seu público-alvo ao modo de vida que relaciona os cristãos professos ao ethos que os definem como tal e que os alinham para uma caminhada prolífica e de absorção tanto da verdade ou das verdades inerentes a sua crença, quanto do usufruto da vida presente que os aproximem da abundância. Para Paulo a vida do homem pós salvação é uma contínua e ascendente trajetória de apreensão do conhecimento da Verdade e de expressão prática dos efeitos nele provocados; Desenvolver a salvação (v.v. 12,13) que Deus efetua no homem, é compartilhar a liberdade adquirida promovendo a libertação dos que ainda habitam suas almas em cativeiros. A irrepreensibilidade diante de Deus mencionada por Paulo, deve ser algo que o cristão ambicione (...para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo)** muito mais que uma marca meramente característica, mas, como uma marca distintiva de um povo que se diferencie dos demais e que se oponha e brilhe diante deles. É certo que nem todos cristãos serão mestres ou alcançarão testemunho excelente, e sempre haverá alguns que se sobressairão a outros, mas a sabedoria é um dom ou atributo que Deus primordialmente dispõe universalmente na medida e com o propósito específico para cada um. De modo que todo aquele que busca em Deus sabedoria para uma vida em virtude e plenitude, tem n'Ele mesmo a fonte de onde se extrai e o doador que oferta àquele que n'Ele busca com fé. Ou seja, Deus tanto dá o dom e a graça, como estimula que se os busque. 
              Na carta aos filipenses, Paulo lembra os crentes que o chamado deles aponta para um encontro com aquele que nos tomou para si, e, isso, é a retribuição singela por um bem maior; é a nossa humilde resposta de gratidão por aquilo que Deus imprimiu em nós, desde antes de tudo, desde a eternidade passada e que por em nós não residir nada que expie o seu ato de amor, façamos e o faremos de maneira o mais justa, o mais pura e mais digna. Tendo em vista diante de nós o ideal, o alvo de uma vida que promova a alegria de Deus em nós, como Paulo encontrou nos crentes de Filipos, é certo que da riqueza em glórias que estão em Deus, seremos saciados e em todas as nossas necessidades Cristo decerto nos suprirá.

                                 *A expressão latina Carpe diem significa literalmente aproveite o dia
                                                                                       ** Epístola aos filipenses. 2.15/ ARA 
               

 
   

Um comentário:

  1. Segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte.
    Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho.
    Filipenses 1:20,21

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