Certa vez, vendo de relance um documentário televisivo que lembrava os 70 anos do lançamento das bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, cativou-me a atenção as falas de 2 militares envolvidos nas missões de lançamento das respectivas ogivas, sobretudo, no que elas destacavam não só a completa ausência de de emoção ou remorso pelas vidas das vítimas inocentes, como também evidenciavam até então, uma inabalável e celebrada subordinação ao comando e às ordens que lhes foram delegadas. Pontualmente, os idosos e inativos militares ressaltavam que aquilo que fizeram, foi o exitoso e efetivo cumprimento dos papéis que lhes foram confiados.
Não cabe aqui debater ou mesmo questionar a conduta, a hierarquia militar e as leis e as ações demandadas por uma guerra. Mas, é no mínimo desconcertante, perceber o quanto o homem está, não importa o tempo que passe, envolvido com a idéia da eficiência prática, e, mais propenso a descrever os pontos altos de sua biografia muito mais pontuado pelos seus feitos mecânicos, do que pelos seus feitos humanos e intencionais; não importam as consequências decorrentes de uma ação humanisticamente negligente, irresponsável ou desproporcional, diante da "necessidade" impositiva de cumprir metas, de responder positivamente àqueles em posição de comando. Ou, parafraseando um sucesso recente do cinema, "missão dada é missão cumprida". Este fenômeno da primazia do trabalho ou da produtividade do trabalho por sobre a própria personalidade do indivíduo, ainda que tendência dominante, já é prática antiga, que remonta à revolução industrial no Século XVIII, e não mais retroagirá, tendo em vista o crescimento populacional e todas necessidades que advêm do convívio em sociedade. Um maior problema pode ser identificado quando essa quase lei celebrada, onde os fins justificam os meios, extrapola o ambiente das relações mercantis e invade o lugar das relações necessariamente orgânicas_ meios que exigem a interação pessoal e vínculos de afeição_ Quando isso ocorre, um efeito colateral devastador que outrora fora particular do mundo dos negócios vem de encontro ao centro das emoções, impedindo-as de ver uns nos outros igual dignidade e sentido; os homens se tornam frios, compulsivamente competitivos e descrentes na humanidade.
Para ilustrar tragicamente essa visão de sociedade, pensemos no microcosmo dos cristãos. Tragamos à tona o modelo de evangelização pragmático atualmente promovido por grande maioria das igrejas atuantes no Brasil; modelo este, que está mais voltado para o angariamento de números ilustrativos e geradores de receita, do que no resgate de pecadores em completa servidão mortal. Os números levantados por pesquisas que demonstram um crescente volume da população evangélica no país, por exemplo, são acompanhados por números que mostram aumento de divórcios, inadimplência, corrupção e tantos outros índices desabonadores nos quais a ação da igreja tem contribuído de alguma forma, direta ou indireta. Mas, onde especificamente reside a origem dessa responsabilidade da igreja como negligente pastoral e agente desumanizadora ao sabor do mundo?_ É na igreja unicamente onde os desajustados do mundo devem ser confrontados com seus pecados, denunciados para si mesmos à sua condição de mortos espiritualmente, onde devem conhecer Jesus que os leva à confissão de suas culpas e arrependimento aos pés da cruz do Cristo e, por fim, receber a instrução bíblica de renovação da mente. Também é na igreja, onde esses indivíduos soberanamente eleitos por Deus do meio dos perdidos devem formar a congregação dos santos e justos. Entretanto, o que deveria ser inegociável e fundamental dentro dessa mesma igreja, tem sido abortado de sua ação missionária e evangelística. A igreja tem sua culpa original quando decide agir como uma instituição do mundo e anula o papel do seu cabeça e redentor.
A igreja é desumanizadora quando "lê" o homem do mundo como alguém a ser cooptado a preço de uma proposta terapêutica contra as pressões cotidianas e de uma massagem no ego; é desumanizadora quando proclama um "plano de salvação" que salva pessoas umas das outras e não da condenação que reside dentro de cada um, um plano que mais se assemelha a um título de capitalização. A igreja é ainda desumanizadora, quando seus líderes agem pessoalmente e estimulam nos outros o cumprimento de metas evangelísticas com tons de legalismo e pressão psicológica para se apresentar ou um Evangelho de placebo, ou um modelo egoísta de testemunho que visa lançar holofotes sobre pessoas e esconder a glória de Cristo; que leva pecadores a destacarem apenas mudanças de comportamento pessoal e abandono de vícios químicos e outros, como se a idoneidade moral ou respeito pelos outros e por si mesmos fosse exclusividade de religiosos. é chocante ver pecadores contumazes que ignoram ou rejeitam por completo sua condição de culpa serem admitidos ao seio da comunidade dos santos sem constrangimento ou censura. O pecado é a inegociável consciência necessária de culpa do indivíduo diante de Deus, escondê-la ou diminuir os seus efeitos sobre o homem é tarefa que retorna-nos à sedução enganosa de Satanás no Éden.
A ação missionária da igreja não pode prescindir do contato, da interação pessoa a pessoa e do investimento de afeições e tempo de uns pelos outros. O antídoto contra a desumanização das pessoas no tempo presente, é a simples manutenção_ não que seja de fato simples levá-la a termo_das relações interpessoais como exceção à regra dominante do mundo. Mas, para que isso possa ganhar nossas vidas, o ministério da igreja
precisa ser o do Evangelho autêntico, que molda pessoas à imagem de seu
redentor e assim, as torna mutualmente confiáveis e gestadoras de mais
partilha em vez de compartimentação. O Evangelho autêntico é e deve ser a
força motriz que anima a igreja como um todo, que refreie as vaidades de
uma liderança que cerceia as liberdades e o espírito de repartição das
decisões e, o diálogo sincero com seus liderados; Evangelho que norteie a
submissão saudável aos pastores da igreja como herdeiros da tradição
apostólica que o próprio Senhor semeou. Para que isso aconteça,
conclui-se que devemos fazer a escolha que privilegíe o zelo pelas
Escrituras em detrimento do modelo de produtividade e eficiência a
qualquer custo. Enquanto envolvidos nesse cenário, cedermos a pressões do
tipo, "seja um ganhador de almas campeão", estaremos sendo mais fiéis
aos dítames do mundo do que aos da Palavra de Deus e mais inflando
nossos egos, do que sendo instrumentos do Espírito.


Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.
ResponderExcluirRomanos 6.23