sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Você sabe... #6 O que é o Cânon?


Imagem de Atanásio de Alexandria "o homem que salvou a fé" no Século IV.



                 Cânon é um vocábulo que não consta no texto das Escrituras Sagradas, mas, deriva da palavra grega kanón  que por sua vez captura sua origem no termo hebraico Kaneh e, sua tradição literal significa respectivamente vara de medir ou cana, e, norma ou regra. Então, o termo Cânon indica aquilo que está dentro da norma ou de acordo com a regra; no sentido que comporte as Escrituras, descreve os livros da Bíblia que compõem a regra de fé dos cristãos.
                  O primeiro uso da palavra dentro nesse sentido teológico escrituristico se deu por Atanásio, o bispo de Alexandria e um dos "pais da igreja" do Século IV em epístola escrita às igrejas onde dentre outros assuntos, ele as informava quais os livros  que fazíam constituir o corpo e conteúdo da Bíblia. Era um período de convulsão e de acaloradas polêmicas teológicas na igreja cristã, em que muitas heresias eram disseminadas e buscavam adentrar ao credo da comunidade cristã e a atuação refulgente e perseverante de Atanásio nos embates e concílios foi de vital importância para a definição da canonicidade dos livros da Bíblia. A sua luta contra heresias como o Arianismo, por exemplo foi tida por seus contemporâneos como salvadora da fé, para ilustrar, basta dizer que quando da realização do Concílio de Nicéia no ano 325, ele era apenas um diácono sem direito à fala, mas diante da profundidade e relevância das discussões e intensamente compungido, tomou a palavra e impôs com brilhantismo suas posição.
               A despeito de algumas teorias que afirmam que a idade, a língua ou equivalência religiosa determinam a canonicidade de um livro, em verdade, a inspiração é o elemento que define se determinado livro é ou não normativo para o homem como Palavra de Deus. Conforme afirma Norman Geisler: "Os livros da Biblia não são considerados oriundos de Deus por se haver descoberto neles algum valor; são valiosos porque provieram de Deus- fonte de todo bem. O processo mediante o qual Deus nos concede sua revelação chama-se inspiração.É a inspiração de Deus num livro que determina sua canonicidade. Deus dá autoridade divina a um livro, e os homens de Deus o acatam. Deus revela, e seu povo reconhece o que  o Senhor revelou. A canonicidade é determinada por Deus e descoberta pelos homens de Deus. A Bíblia constitui o "cânon", ou "medida" pela qual tudo mais deve ser medido. e avaliado pelo fato de ter autoridade concedida por Deus. Sejam quais forem as medidas (i.e., os cânones) usadas pela igreja para descobrir com exatidão que livros possuem essa autoridade canônica ou normativa, não se deve dizer que "determinam" a canonicidade dos livros. Dizer que o povo de Deus, mediante quaisquer regras de reconhecimento, "determina" que livros são autorizados por inspiração de Deus só confunde a questão. Só Deus pode conceder a um livro autoridade absoluta e, por isso mesmo, canonicidade divina."*
               "O sentido primário da palavra cânon aplicado às Escrituras é aplicado na acepção ativa, i.e., a Bíblia é a norma que governa a fé. O sentido secundário, segundo o qual um livro é julgado por certos cânones e é reconhecido como inspirado (o sentido passivo), não deve ser confundido com a determinação divina da canonicidade. Só a inspiração divina determina a autoridade de um livro, i.e., se ele é canônico, de natureza normativa."**
               Durante o Concílio de Cartago  no ano 397 foi discutido e celebrado: " [Foi decidido] que nada, salvo as Escrituras canônicas, deveria ser lido na igreja sob o nome de 'Divinas Escrituras'. As Escrituras canônicas são: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Rute, 4 livros dos Reinos (1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis), 2 livros dos paralipômenos (1 e 2 Crônicas), Jó, o saltério de Davi (Salmos), 5 livros de Salomão (Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos cânticos, Sabedoria e Eclesiástico), 12 livros dos profetas (Oséias, Joel, Amós, Abdias+ ou Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc+, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias), Isaias, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobit+, Judite, Ester, 2 livros de Esdras, e 2 livros dos Macabeus. E também, do Novo Testamento: 4 livros dos Evangelhos, 1 livro dos Atos dos Apóstolos, 13 epístolas de Paulo apóstolo, 1 do mesmo [Paulo] aos Hebreus, 2 de Pedro, 3 de João, 1 de Tiago, 1 de Judas, [e] o Apocalipse de João. Assim, [foi decidido] que a igreja do outro lado do mar seria consultada para confirmar este cânon, bem como será permitido ler os sofrimentos dos mártires, quando da celebração de seus dias de aniversário." ***
                Como você percebe neste excerto construido pelo concílio de Cartago, constam na lista dos livros veterotestamentários canônicos da Bíblia diferenças pontuais de grafia e discriminação dos mesmos, além de também verificar a adição dos livros chamados deuterocanônicos constantes da Biblia de versão grega (Septuaginta), mas que não constam no texto hebraico. Na lista dos livros neotestamentários, a única observação a ser feita é a atribuição da epístola aos  Hebreus ao apóstolo Paulo, uma compreensão quase que universalmente negada. No Século XVI com a consolidação da Reforma Protestante, a Bíblia Sagrada foi finalmente estabelecida em conformidade com o corpo canônico que a conhecemos hoje, com 39 livros do Antigo Testamento e 27 livros do Novo Testamento. Dentre os anos de 1545 e 1563, a igreja católica apostólica romana realizou o concílio de Trento na tentativa de mostrar reação ao avanço da Reforma, e, voltou a ratificar os livros deuterocanônicos para o conteúdo das Escrituras, mas , esta decisão e esta listagem tornaram-se  uma propriedade especial dela.




Fontes:
* e **: Introdução Bíblica, como a Bíblia chegou até nós._Norman Geisler e William Nix/ Editora Vida 
+: Grafias utilizadas na época.
***:  Cânone 36 do concílio de Cartago, conforme ; Denzinger Enchiridion Symbolorum (fonte do dogma católico)






2 comentários:

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  2. Toda a escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra. 2 Timóteo 3: 16-17.

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