sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Você sabe... #8 A Contrarreforma




              
Frontispício da Vulgata latina, a tradução oficial da igreja segundo o concilio de Trento



                A Contrarreforma ou Reforma Católica, foi o movimento de reação da igreja católica apostólica romana às proposições e aos efeitos produzidos pela Reforma Protestante na Europa do Século XVI.  O marco central dessa reestruturação eclesiástica ocorreu no Concílio de Trento, convocado em 1545 pelo papa Paulo III e visando uma determinação de unidade da fé e de disciplina eclesiástica para o catolicismo. Este é um tema bastante polêmico e que suscita fervorosos debates por parte de historiadores da época e da igreja de então, começando pelo fato de que estudiosos mais recentes de orientação católica se opõem ao próprio entendimento que outrora fora consensual, de que o cenário e o contexto em que se operou a reforma católica é anterior à própria Reforma Protestante; desde antes do décimo sexto Século, movimentos reformistas dentro da igreja católica já podiam ser vistos na Europa. 
                 É verdadeira a afirmação de que podiam ser encontrados na grande seara da cristandade certos focos de tendências reformistas com uma conduta mais voltada para a espiritualidade do que para a ordem eclesial. No entanto, esses focos além de ínfimos e locais, eram antes de tudo, extrainstitucionais, eles partiam de ações de despertamento individual e de reorientação do procedimento pessoal por entender que a oferta de vida religiosa dada pela igreja era insuficiente diante das demandas divinas. Também esses cristãos, além de não pretenderem qualquer interferência na condução papal, conservavam impoluta sua confiança nos dítames católicos da infalibilidade papal, da tradição e da salvação orgânica mediante o ministério da igreja. Um exemplo que talvez caiba a menção aqui, seja o nome do reformador Girolamo Savonarola (Hyeronimus Savonarola), um padre dominicano profundamente preocupado com o paganismo e a perversão moral na rica e próspera Florença do Século XV. Savonarola tinha uma inquietação genuína e voltada para Deus, ainda que dada a excessos místicos e guiada por supostas experiências de extase, mas, ele tinha como objeto principal de sua inimizade a pessoa do papa Alexandre VI  e seu modo de governar a igreja e os estados por ele "apadrinhados". A conjuntura social e política na Europa do Século XV era predominantemente definida pela Igreja que detinha grandes riquezas e o maior poder sobre todos os estados-nações, o poder exclusivo de consagrar imperadores e monarcas. Até mesmo aquele que mais tarde tornar-se ia seu grande opositor, que se insurgiria ferozmente ao papel de definidor das verdades no mundo, o Renascimento, foi de início subordinado a ela, uma vez que os artistas e pensadores eram sustentados financeira e filosoficamente por seus cofres diretos ou os de protegidos seus. 
                   Mas, o principal fator que despertou e conduziu a Reforma Protestante, foi a profunda degradação moral e os abusos despóticos da igreja. Foi contra isso que Lutero e outros reformadores se insurgiram; a Reforma nunca pretendeu ser um movimento de rebeldia contra a igreja, todos os célebres reformadores sempre entenderam que a Igreja é o "braço esquerdo de Deus" em ação no mundo. Há um bom número de historiadores ou estudiosos do período que informam ter havido tentativa ou tentativas de reaproximação entre reformadores e a Cúria romana propostas por estes últimos, sem contudo, ter progredido diante da dureza e irredutibilidade orgânica dos mesmos. Uma outra discórdia moderna de alguns historiadores de orientação católica é acerca dessa situação de degeneração espiritual e moral da igreja no período que antecedeu a Reforma. Há quem informe* bastidores de negociações por parte dos estados papais envolvendo uma possível convocação para concílio de redefinição da organização e dos poderes da igreja católica, que não teríam alcançado a aprovação do papa, pelo mesmo temer uma tendência secularizante de seus domínios.  Não ignoremos entretanto, o preponderante fator da perda do número de fiéis da igreja que aderia à pregação evangélica dos reformadores e que exigia uma reação do catolicismo
                   Correspondente à uma verdade ou não, esses relatos em nada contribuíram para uma reestruturação positiva da igreja no sentido de atender às expectativas e necessidades espirituais dos cristãos. Primeiro, porque a Igreja Católica respondeu às proposições bíblicas de Lutero com perseguição e censura tratando-o como herege e uma espécie de "capelão do Diabo" e os que o seguiram, como excomungados condenados. Segundo, porque quando de sua resposta institucional à Reforma Protestante, a Contrarreforma não ofereceu qualquer refrigério ou "vento novo" de espiritualidade para a massa de seus congregados; as resoluções do Concílio de Trento só visavam fortalecer a estrutura de poder católica como exclusiva portadora da Palavra e da identidade de Cristo. Foram resoluções do Concílio de Trento: Foi recuperado e revestido de maior poder o Tribunal do Santo Ofício (a inquisição), foi elaborado e editado o Índice dos Livros Proibidos (Index Librorum Prohibitorum), um catálogo de livros proibidos pela igreja, bem como as regras para a censura à novos livros subordinadas em última instância, a autoridade papal, foram  criadas novas ordens religiosas para a catequese dos povos do Novo Mundo, foram criadas universidades e seminários e foi definida a Vulgata (versão latina) como a tradução oficial da Bíblia entre outras. Uma das poucas decisões da contrarreforma que realmente poderíam ser boas, foram reduzidas em seu alcance pois as heréticas indulgências foram diminuidas em seus abusos, mas não extintas.
                   A Contrarreforma como qualquer outro movimento histórico da Igreja não pode ser compreendidos por concepções reducionistas, há todo um contexto predecessor e um contexto de efeito que merece profunda análise para que não só conheçamos a história de nossa crença pessoal, mas, para que possamos sustentar e defendê-la com consciência e por convicção. Mas, em virtude da consideração das respostas da igreja não atingírem as ânsias espirituais nela depositadas, podemos resumir o expediente da Contrarreforma, como a definição dos que estão do lado de dentro da salvação oferecida pelo ministério católico, e, os que estão do lado de fora.
            



* A Divisão da Cristandade_ Da Reforma Protestante à Era do Iluminismo/ Christopher Dawson_______  É Realizações Editora




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